12 July 2012
No tempo em que os alunos ainda iam à escola havia uma pequena universidade escondida numa floresta que era tão grande que se estendia das serras ao mar e tão escura que até os lobos tinham medo de lá entrar. Aqueles estudantes mais afoitos que a tal se arriscavam nunca mais eram vistos. Diziam os velhos que por vezes nas tabernas se ouviam histórias de arrepiar. Marinheiros que afirmavam que passados muitos anos os viam a trabalhar em terras longínquas onde punham em prática os ensinamentos que lhes tinham sido ministrados, mas os lobos, esses nunca mais eram vistos. Os pastores dos montes afirmavam ouvi-los chorar nas noites de lua cheia, mas deles, nem rasto nem cheiro.
A história que hoje vos vou contar é a de um rapazinho da vossa idade e que se chamava Miguel. Era muito prestável e trabalhador. Vivia com a avó numa cabana na orla do bosque e cuidava para que nada nunca lhe faltasse. Nos longos e gélidos Invernos, era vê-lo ainda o sol dormia por trás dos montes, a apanhar lenha, a montar armadilhas para coelhos, a cavar na pequena horta de solo enregelado. Se alguém passasse por lá após o sol se deitar no azul do mar ainda veria a luz da cabana acesa e a chaminé a fumegar.
Um dia, já a velha avó se encontrava muito doente, chamou-o e disse-lhe:
__ Miguel, tens sido um lindo menino, mas está na altura de tratares de ti. Deves procurar a universidade que se encontra no meio da floresta e dizeres ao porteiro tudo o que tens feito aqui por mim. Conta-lhe como trabalhaste do nascer ao por do sol, conta-lhe como cuidaste de mim. Ele saberá dizer-te o que fazer.
De seguida apontou para uma capa vermelha, que estava muito bem dobrada em cima do baú.
__ Pega essa capa. Ela pertenceu ao teu avô. Há-de proteger-te do frio e dos lobos.
E dito isto, recostou-se na almofada e fechou os olhos. Tinha morrido.
O Miguel olhou para ela e cheio de medo agarrou na capa, vestiu-a, abriu a porta e fugiu daquele lugar embrenhando-se na floresta. Era noite de lua cheia e ao longe ouviam-se os lobos que choravam. Tirando um bocado de pão que encontrou no bolso da capa foi deixando migalhas para marcar o caminho de regresso, sem reparar que os pequenos animais da floresta imediatamente as recolhiam e levavam para as suas tocas e ninhos.
Embrenhou-se na floresta cada vez mais e mais. Já lhe doíam as pernas de cansaço e a fome apertava. Arrependeu-se de ter desfeito o pão para marcar o caminho até porque este já tinha acabado e ele não via forma de regressar. As lágrimas afloraram-lhe os olhos, e fungou. «Estranho», pensou ele, «cheira a cacau quente e caldo verde. Será que estou a chegar à Ribeira?» Uma luz brilhava ao longe por entre as sombras das árvores e o Miguel correu para ela, arranhando as pernas e rasgando a capa nos ramos e arbustos, até que desembocou numa pequena clareira onde estava a universidade de que falara a avó, uma casa enorme, toda feita de chocolate e rebuçado e, imagine-se, à porta, todo fardado a preceito, um porteiro com cara de poucos amigos.
O Miguel acercou-se dele e de olhos baixos contou-lhe o que a avó mandara. O porteiro, que era uma bruxa disfarçada, ouviu-o e quando ele acabou de falar, comoveu-se com ele e deu-lhe uma maçã, linda e vermelha. Cheirava que era um regalo e nem sequer tinha uma minhoca. De dentada em dentada devorou-a que a fome era muita. Quando atirou o caroço por cima do ombro, um lobo que aguardava escondido nas sombras, saltou por cima dele e apanhou o caroço ainda este não tinha tocado o chão. O Miguel respirou de alívio porque o lobo era mesmo muito grande e ele teve muito medo, pois não sabia que naquela floresta os lobos só comiam caroços de maçãs e por isso choravam de fome nas noites de lua cheia.
O porteiro então disse-lhe para entrar e procurar a sala onde o reitor estava a dar aulas.
__ É fácil. __ disse ele. __ É aquela onde os alunos estão a dormir. Não te esqueças, quando lá chegares, bates à porta e pedes licença para entrar.
Realmente não foi difícil dar com a porta da sala, pois era a única que estava fechada. Lembrando-se do que lhe dissera o porteiro, bateu com os nós dos dedos na madeira escura e velha. A porta abriu-se com um ranger da madeira e chiados nas dobradiças. Dentro da sala, sentado na secretária, o reitor olhava para ele que tremia sem se atrever a entrar.
__ Sim? __ perguntou o reitor.
Enchendo o peito de ar, arranjou alguma coragem para falar.
__ O Senhor Professor dá-me licença?
O reitor encolheu os ombros e respondeu.
__ Está licenciado.
__ Yes! Yiiies! __ o grito ecoou pelos corredores enquanto o Miguel corria para a saída. __ Passei! Passei...
A mais rápida licenciatura de que há memória • Opuss № I